domingo, 21 de agosto de 2011

Dogma da Assunção de Nossa Senhora

Fr. Bruno Áthila Nascimento Silva, SAC


A proclamação do Dogma da Assunção assinala o ponto alto da existência de Maria e de sua consagração por Deus. E é como que consequência dos outros dogmas, o da maternidade divina, o da virgindade perpétua e o da imaculada. Foi proclamado como verdade de fé, por Pio XII, com a bula dogmática Munificentissimus Deus, no Ano Santo de 1950. Mas, é verdade que a história desta afirmação de fé se arrasta por séculos. Já os Padres da Igreja, em especial os do Oriente, defendiam a incorruptibilidade do corpo de Maria na sua Dormitio. E a eles também o papa recorre na fundamentação teológica deste dogma.

Não há testemunhos diretos e explícitos sobre a morte de Maria e de sua elevação em corpo e alma na Sagrada Escritura. O que temos são textos que sugerem a grandeza dos favores de Deus na vida de Maria e sua íntima ligação com o seu Filho.

E na Tradição só aos poucos vão surgindo os testemunhos da convicção de que Maria foi elevada ao céu de corpo e alma. Só no séc. VI (no Oriente) e VII (no Ocidente) passou-se a celebrar a festa da Dormição da Mãe de Deus no dia 15 de agosto e nos tempos de Carlos Magno essa festa ganha no Ocidente o nome de Assunção de Maria (Assunção – significando que Maria foi assumida e acolhida na glória) e com esse nome a festa designava a ressurreição de Maria depois de sua morte. Com o advento da Idade Média e os grandes representantes da teologia escolástica de então, Alberto Magno, o Doutor Angélico Santo Tomás, o Doutor Seráfico S. Boaventura e outros, a festa ganha proporções maiores. Alguns foram mais explícitos em defender e afirmar que o corpo de Maria foi preservado da corrupção e que ela na sua totalidade (corpo e alma) foi associada à glória de seu Filho (S. Boaventura). Outros fora mais tímidos, mas nem por isso deixaram de dar um parecer favorável (Santo Tomás).

As petições para que o papa proclamasse o dogma da Assunção começam a surgir no séc. XVIII e no pontificado de Pio XII elas se intensificam. Em maio de 1946 com a encíclica Deiparae Virginis, Pio XII deseja saber qual seja o parecer dos Bispos levando em conta o clero e o povo, sobre a definição dogmática. O que o papa quer saber é se os bispos são favoráveis a definição e se desejavam que fosse proclamado este dogma. Depois de quatro anos e com as respostas na sua maioria afirmativas, Pio XII procede com a elaboração da Carta Dogmática Munificentissimus Deus onde solenemente declarava que Maria, terminado o curso de sua vida terrena, foi elevada à glória celeste em corpo e alma.

O dogma da Assunção é proclamado com sobriedade de palavras, mas com grande beleza e decisão. Afirma-se que “terminado o curso da vida terrena”: não se diz que houve morte natural nem se fala em sepultura, já que não eram uníssonas entre os teólogos essas questões. “Maria foi elevada”: está no passivo, portanto, diferente de Jesus que subiu ao céu, Maria é elevada por Deus à glória celeste isso significa que “mais que uma nova localização, o que se afirma é uma mudança de estado do corpo de Maria, e a passagem da condição terrestre à condição gloriosa da totalidade de sua pessoa, que se encontra unida ao corpo espiritual e glorioso de seu Filho” (SESBOÜÉ, 2005, p. 502).

Poderíamos fazer algumas leituras do dogma:
1 – Cristológica: Maria é assemelhada ao seu Filho glorioso. E como nos outros dogmas é em vista do vínculo pessoal de Maria com o Verbo Encarnado que ela é preservada da incorruptibilidade do corpo. Foi no útero de Maria que o Verbo recebeu a carne incorruptível, isso deu a Maria a condição de incorruptibilidade.  E por outro lado, se Maria foi preservada do pecado em vista do Verbo, esse mesmo Verbo a conservou a corrupção de seu corpo, “já que o corpo de Maria não pode ser separado do corpo de seu Filho” (SESBOÜÉ, 2005, p. 504). Boff diz que a Páscoa de Maria em relação à de Cristo confirma e reforça a nossa Páscoa. Da nossa ressurreição, a Assunta torna-se uma garantia complementar. Maria, na sua Assunção, reforça e aponta para a beleza do Mistério do Ressuscitado (cf. 2006, p.520).
2 – Eclesiológica: Maria Assunta é tipo da Igreja triunfante. É o pleroma (realização plena) das aspirações da Igreja militante neste mundo. A Assunção da Virgem é motivo de consolação para a Igreja que vê realizar-se em Maria as promessas do Deus misericordioso e de esperança, pois um dia a Igreja Peregrina neste mundo espera a plenitude que Maria já alcançou.
3 – Mariológica: é Maria que na totalidade (corpo e alma) de sua vida é salva, é ressuscitada, é assunta. Como bem acentua o Papa Pio XII na MD, Maria é Assunta por um privilégio especial e o dogma aqui tratado insere-se no rol dos muitos favores que a Virgem recebeu do Deus munificentíssimo e que os fieis reconheceram: “os fieis iluminados pela graça e abrasados de amor para com aquela que é Mãe de Deus [...] compreenderam cada vez com maior clareza a maravilhosa harmonia existente entre os privilégios concedidos por Deus àquela que o mesmo Deus quis associar ao nosso Redentor. Esses privilégios elevaram-na a uma altura tão grande, que não foi atingida por nenhum ser criado, excetuada somente a natureza humana de Cristo” (MD, n.14).
4 – Antropológica: semelhante à leitura mariológica, no dogma da Assunção, o humano contempla em Maria a sua futura realização. Esse dogma é fortemente antropológico. A partir dele se faz uma leitura otimista da vida humana integral. Aqui o corpo de Maria é assumido, o que significa que a corporeidade é objeto da salvação e que o homem por completo está “destinado a se prolongar, transfigurado, para dentro do Mistério da Vida e do Amor que é a própria Santíssima Trindade” (BOFF, 2006, p. 524).
O dogma da Assunção foi proclamado anos depois da Segunda Guerra Mundial, com ele o papa também quer reforçar o amor do povo cristão por Aquela que sempre auspiciosamente mostrou-se como Mãe presente na vida e nas dores do povo. O papa também apresenta ao mundo um ícone de uma mulher que foi exaltada por Deus. Que foi amada por inteira na sua dimensão corpórea-espiritual e que aponta o destino final de todo homem e de toda mulher: ser salvo na integralidade do seu ser, ver a sua humanidade transfigurada pelo poder misericordioso de Deus.
Maria é para o mundo abalado por uma grande guerra, alento e refrigério. O homem que foi humilhado, desprezado, maltratado, aniquilado, vê em Maria uma esperança de que a sua dignidade será outra vez reconhecida e seu direito inalienável de viver, respeitado. Como pode-se perceber, a preparação da proclamação desse dogma aconteceu durante séculos e ele foi justamente definido num período de grande desolação em que se encontrava a humanidade, de modo especial, o continente europeu.
Por um lado, diante de tantas imagens de homens e mulheres, crianças, jovens e velhos feridos e aniquilados, (é só pensar nos campos de Concentração onde o homem era literalmente destruído), tem-se por outro, a imagem de Maria com seu corpo glorificado e sua humanidade exaltada. O homem que foi humilhado tem diante dos olhos uma prova de que Deus não abandona, “pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl16,10) e contempla em Maria, aquilo que seu coração anseia: habitar junto de Deus por toda a eternidade, saborear a suavidade do Senhor. Maria é imagem do homem e da mulher libertados, dignificados. Aqui não é amputado ao homem a sua dimensão adâmica. Mas essa é trans-assumida, é glorificada, é salva sem reservas. Aqui a obra de Deus é completada.

Tenham todos um bom domingo!

Equipe Vocações Curitiba

Um comentário:

  1. No Evangelho de hoje mostra a consciência que Maria obteve ao acontecimento novo em sua vidae proclama as maravilhas que Deus opera a partir dos pequenos e fracos.Maria acreditou e viu a ação divina de Deus na sua história. Celebrando o mistério da ASSUNÇÃO DE MARIA, a Igreja proclama a ação de Deus na vida desta mulher que, fazendo-lhe "humilde serva",colocou-se a serviço do plano de Deus.No meu entender Assunção é o sim de Deus ao sim de Maria.
    Um abraço a todos da equipe vocacional.

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